segunda-feira, 2 de março de 2015

Aquela da propaganda de cerveja

Não assisto muito TV, mas há umas duas semanas atrás deixei a TV ligada por alguns minutos... triste momento. Nesses alguns minutos passaram várias coisas passíveis de questionamentos, mas a maior e mais gritante delas foi a nova propaganda da Itaipava.



Nada de novidade. Apenas mais uma marca de cerveja que resolve explorar o corpo feminino como estratégia de vendas. Quanta originalidade Itaipava. Como se não bastasse, nunca vi tanto close em bunda e peito em 30 segundos (talvez no Pânico ou na banheira do Gugu, disputa acirrada aí para ver quem mostra mais bunda em menos tempo).







Qual o problema disso? O problema é que a mídia é uma das maiores formadoras de opinião do nosso país e veicular propagandas desse tipo servem para reforçar o estereótipo da mulher como objeto sexual, da mulher como corpo, e mais, da mulher como corpo a serviço e disponibilidade do homem. A garota está ali apenas para agradar ao olhar masculino, para embelezar o lugar. Lugar, este, que tem apensas clientes homens, vendedores homens. Ela é a única presença feminina em cena e sua função ali é servir aos homens, representando um papel totalmente sexualizado. Ela não é construída enquanto um sujeito portador de um discurso próprio, de vontades, de personalidade, mas como um objeto a ser visto e utilizado conforme os desejos masculinos. E é assim que homens vão enxergar mulheres (lembra: mídia = formadora de opinião), pois é isso que recebem de estímulo visual diariamente. 

O nome da atriz também despersonaliza a mulher enquanto sujeito. A propaganda faz um trocadilho do nome próprio Verão com a estação do ano, gerando um duplo sentido na frase, pois o telespectador pode entender que os homens estão pedindo a volta da garota ou a volta da estação do ano, que realmente está acabando. Quando o corpo feminino é utilizado com esse fim, atrair o olhar masculino para a venda de um produto, não é necessário dar um nome a esse corpo, pois o nome personaliza, identifica, individualiza o ser. Acontece que nessas propagandas a mulher não é um ser individualizado, é apenas um objeto a serviço de alguém.

Nem preciso comentar que a propaganda ainda perpetua nas mentes das pessoas um padrão de beleza (padrão criado por e para homens) que deve ser o objetivo a se alcançar por toda mulher. Branca (mas bronzeada), magra, cabelos lisos e bem tratados, roupas curtas e torneada de academia, rosto simétrico, pele sem marcas ou falhas, eternamente jovem. Um padrão de beleza inexistente na maioria das brasileiras, mas exigido pelos homens. Frustrações diárias na vida de muitas mulheres se dão apenas pelo fato de não se parecerem com a atriz da propaganda.

"Você não precisa se parecer com isso"

Além disso, a mulher sofre assédio verbal dos homens da propaganda e demonstra estar gostando disso. As frases “Vem verão”, “Vai verão”, associadas ao olhar de desejo e cobiça por parte dos homens são ouvidas todos os dias por TODAS as mulheres que ousam caminhar na rua sozinhas, apenas em outro contexto. Qual mulher nunca ouviu um “Vai gostosa”, “Vem gostosa”, junto com esse mesmo olhar? E qual mulher gostou disso? A propaganda serve para reforçar o assédio de rua, uma vez que faz os homens pensarem que as mulheres gostam desse tipo de abordagem, já que a atriz sorri para cada "cantada". Não, mulheres não gostam disso!




https://www.youtube.com/watch?v=b1XGPvbWn0A


Fica pior. Fui pesquisar mais sobre a propaganda e vi que no youtube a marca disponibilizou inúmeros outros vídeos tão machistas quanto, nos quais dá conselhos ao público (masculino) sobre como aproveitar o verão. Um dos conselhos era como olhar para as mulheres na praia sem a namorada perceber, como esconder uma ereção quando ver uma mulher na praia, como usar o corpo de uma mulher para roubar cerveja, etc etc., todos usando o corpo feminino como objeto de vendas.

Me parece que as marcas de cerveja esquecem que 50% (ou mais) do mundo é feminino e que grande parte de seus consumidores são mulheres. O mínimo de respeito com esse público está longe de acontecer. Que imagem de mulher essas propagandas estão construindo? O quão natural se torna objetificar a mulher depois de assistir isso na TV? Que imagem meninos e homens constroem das mulheres recebendo esse tipo de estímulo?

Trote machista da USP e homens apenas reproduzindo o que receberam de propagandas como a da Itaipava ao longo da vida.

No final da propaganda, a atriz ainda faz um comentário que contém uma mensagem implícita: "Vai vender tudo". Vai vender tudo por que? Por causa do corpo feminino sendo utilizado para vender produtos. E vai vender para quem? Para homens, já que essa é uma propaganda toda voltada ao público masculino.

Eu já evito a Heineken depois daquela propaganda completamente estereotipada do armário de sapatos e a Schin depois do homem invisível, agora está aí outra cerveja para a qual não vou dar meu dinheiro. Devo começar a beber cachaça?


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